Direção de modelos; how to? – por Clício Barroso

por clicio em 23 de novembro, 2009

Direção de modelos; how to?

©1996 Clicio Barroso  |  Polaroid Emulsion Transfer, "Love Transfers"©1996 Clicio Barroso | Rui – Polaroid Emulsion Transfer, “Love Transfers”

 

Por minhas andanças pelo Brasil afora, em palestras e workshops, o que mais tem me chamado a atenção é o despreparo dos fotógrafos quando o assunto é a direção fotográfica nos retratos.

Retratar pessoas significa lidar com o psicológico do ser humano, algo que pode ser bastante complicado. Via de regra, o fotógrafo tem suas inseguranças pessoais e profissionais, tais como: “Vai dar certo? É a melhor luz para este rosto? Será que não vai pifar nenhum equipamento? Estou sendo agradável e gentil o suficiente?”
Por outro lado, fato que muitas vezes é esquecido, o retratado estará muito mais inseguro que o fotógrafo. Ser fotografado significa, em última instância, se desnudar para a objetiva, mostrar um pouco o que se quer manter escondido , compartilhar segredos com uma máquina.
Quando se trata de um retrato familiar, daqueles de fim de semana, não haverá problema algum, já que a intimidade do fotógrafo com o fotografado diminui e muito o constrangimento de quem está posando. Isso significa geralmente um resultado com fotos espontâneas, divertidas, muitas vezes reveladoras da personalidade real da pessoa, o que afinal é a essência do retrato.
Quando, por outro lado, lidamos com retratos de modelos, atores, músicos e outras atividades profissionais, que por obrigação precisam ter uma exposição maior à mídia, em geral os problemas também são pequenos. Estes profissionais estão acostumados a “vestir” um presonagem para a câmera, possuem uma imagem pública que gostam de mostrar, e uma imagem privada que procuram preservar. O trabalho do fotógrafo é facilitado por esta postura profissional, e pela segurança ensaiada que os retratados transmitem.

© 2002 Clicio Barroso  |  Erika Redling© 2002 Clicio Barroso | Erika Redling

 

Porém…
Se o retratado é uma pessoa comum, que quer ser fotografado por vaidade, por necessidade profissional, ou para acompanhar uma sequência de eventos como a gravidez, o crescimento dos filhos ou da família, as dificuldades aparecem. Como fazer para que esta pessoa se sinta à vontade, confiante, mais disposto a mostrar um pouco da sua personalidade? Algumas dicas são fundamentais!

Algumas dicas para o fotografar gente no estúdio.

Ambiente do estúdio: procure manter o estúdio arrumado e limpo, com música agradável, temperatura amena (ar condicionado é essencial), água, frutas e café sempre a disposição. É fundamental haver um espaço privativo para que os que vão ser fotografados possam se vestir, e se for o caso, tratar da maquiagem. Um grande camarim com porta que possa ser fechada é sempre desejável.

Escolha do equipamento: Objetivas longas (teleobjetivas) fazem com que o fotógrafo tenha que se afastar muito do retratado, o que implica em uma direção mais distante, com o fotógrafo tendo que falar mais alto. A distância preserva a intimidade de quem está posando, mas pode parecer uma direção mais agressiva, inibindo os mais tímidos.
Já as objetivas mais curtas, como as normais e as grande-angulares, aproximam o fotógrafo da cena, criando uma intimidade maior. Ao falar mais baixo e estar mais perto, o fotógrafo compartilha mais do espaço ocupado pelo fotografado, criando uma cumplicidade que pode facilitar a comunicação em alguns casos, mas pode assustar em outros. Depende sempre da sensibilidade do fotógrafo em identificar rapidamente a personalidade de quem está ali na sua frente. Um problema técnico inerente destas lentes de distância focal curta é a distorção, que é mais aparente conforme se chega mais perto, e deve ser evitada a qualquer custo.
Finalmente, a lente chamada de meia-tele ou tele curta, é a mais indicada para retratos, tanto pela parte técnica (não distorce), quanto pela psicológica, já que mantém o fotógrafo a distância respeitosa do retratado, mas não tão longe a ponto deste precisar gritar para se fazer ouvir.

Estilo de direção: Existem várias tendências e escolhas na direção fotográfica; há os que sussurram, os que gritam, os que são engraçados e divertidos, os sedutores, os técnicos. O mais inteligente, na minha opinião, é saber ajustar a sua direção à personalidade daquele que está posando, para ser eficiente e estabelecer uma empatia imediata. Para os tímidos, uma direção calma, paciente e amiga; para os naturalmente extrovertidos, uma direção mais divertida, mais agressiva; para executivos, uma direção séria e firme. O importante é fazer com que o fotografado se sinta seguro.
Outro atributo da boa direção é estimular a vaidade, sempre elogiando, sem exageros, as poses, expressões e posturas do que está posando.

Tempo da sessão: Pode parecer estranho, mas toda a sessão fotográfica tem um tempo próprio para acontecer com sucesso. Há uma fase de aquecimento, que pode ser mais ou menos longa, dependendo da pessoa fotografada; há uma fase de pico, onde as fotos realmente boas vão ser capturadas, e uma fase de esfriamento, quando chega o cansaço e o fotografado perde rapidamente o interesse pela sessão.
É obrigação do bom fotógrafo identificar estas três fases distintas da sessão, respeitá-las e agir de acordo com cada uma delas. Economizar tempo (ou filme), pode fazer com que o fotógrafo encerre a sessão ainda na fase de aquecimento, perdendo a oportunidade de fazer as melhores fotos; por outro lado, insistir em fotografar quando a fase de pico já passou, é perda de energia e vai se mostrar inútil, na maior parte das vezes.

Exercícios: Para que o fotógrafo iniciante na direção possa treinar seus métodos, proponho sempre uma série de exercícios a seguinte forma: procura-se alguém conhecido para servir de modelo, e com toda a iluminação e produção típicas de uma sessão de retratos, o fotógrafo vai procurar tirar do fotografado, com a maior veracidade possível, os seguintes sentimentos, conceitos e situações:

tristeza, raiva, atração, alegria
surpresa, desprezo, pretensão
histeria, desespero, escárnio
introspecção, ódio, dor, ternura
força, romantismo, sensualidade
espontaneidade, dinamismo
elegância, agressividade, simpatia
estresse, bem-estar, conflito, flerte

©2009 Clicio Barroso  |  Ellen Melo©2009 Clicio Barroso, lição, fotografia, fotógrafo, estúdio, aula,  | Ellen Melo, “Verso/Reverso”

 

Não é preciso que tudo seja feito em apenas uma sessão, e nem que o “modelo” seja o mesmo; o ideal é que haja interação entre os dois, fotógrafo e modelo, e que o resultado fotográfico demonstre claramente a intenção do fotógrafo e os sentimentos do fotografado.

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