Profissionais e Amadores; quem liga? – por Clício Barroso

O texto a seguir é uma grande reflexão do mestre clício Barroso sobre as mudanças e mutações que o mercado fotográfico tem imposto ao meio fotográfico e dos fotógrafos.
Muitas destas situações e posturas são sentidas dia-a-dia pelos que anseiam e desejam entrar neste universo.
Vale a pena a reflexão e compreensão do mesmo, podendo inclusive ser aplicado a outros nichos der mercado que estão em constante revolução devido aos avançso tecnológicos.
Abraços
André Russo
Clicio 2010

©Clicio Barroso 2010

Desde que a fotografia se tornou comercialmente viável, na segunda metade do século XIX, os fotógrafos naturalmente se compartimentaram em categorias de acordo com seus interesses financeiros, artísticos ou políticos. Uma consequência desta segmentação foi a criação de rótulos e sua aplicação na fotografia, fazendo com que algumas das diversas categorias, em alguns momentos, se tornassem antagônicas ao invés de uníssonas; inevitável, posto que quando interesses comerciais estão em jogo a competitividade aumenta.
Surgiu então no decorrer do século XX uma pirâmide social da fotografia, com os fotógrafos dedicados à publicidade se imaginando no topo, já que seu faturamento era o mais alto dentre as categorias ditas profissionais, enquanto jornalistas e documentaristas se enganavam achando que o importante não é o dinheiro, mas sim a “fotografia pura” com seu vínculo sagrado ao referente, à verdade, apesar das conhecidas manipulações de imagens por motivos estéticos, políticos ou simplesmente para destacar as suas funções conotativas; um paradoxo quando a tal fotografia do real deveria ser apenas denotativa, o que sabemos ser impossível quando se trata de imagens técnicas.
Se profissionais são aqueles que produzem fotografias comercialmente e dela tiram seu sustento, então é necessária uma preparação para que o negócio seja bem sucedido; isso inclui o domínio dos conceitos e técnicas que formam a praxis da fotografia, capital suficiente para a compra de equipamentos e instalações físicas de cimento e tijolos, e um network de clientes incentivado pelo marketing e divulgação. Tais pré-requisitos serviam como um filtro natural, elitizando a fotografia comercial durante todo o século passado, já que equipamentos caros, educação, treinamento específico, e estúdios estavam ao alcance de apenas poucos indivíduos; os que se arriscavam por conta própria deveriam necessariamente fazer sucesso, sob o risco de falirem; e as grandes corporações, principalmente jornalísticas, contratavam como funcionários ou free-lancers aqueles fotógrafos que se destacavam mas não tinham recursos ou inclinação suficiente para montar seus próprios negócios de fotografia.
Na base da pirâmide, os amadores.
A palavra vem do latim amator, “amante”, aqueles que gostam do que fazem, sem expectativas de lucro. Alguns amadores, com recursos próprios e sem a necessidade do ganho financeiro, já que não fizeram da fotografia a sua profissão, acabaram se tornando especialistas bem informados e possuidores de equipamentos e conhecimento mais relevantes e específicos que aqueles dos próprios profissionais; o problema naquele momento histórico era de escala, já que o número destes “amadores avançados” foi sempre limitado pelo preço dos equipamentos e acesso à distribuição das suas fotografias. Ainda assim, durante o século XX, o número de pessoas fotografando por prazer foi aumentando progressivamente, na razão inversa do custo de se fotografar; quanto mais acessíveis as câmeras, objetivas e ampliações, maior o número de aficionados, fortalecendo esta base.
Nos anos 90, duas forças começam a inverter essa pirâmide; a substituição da tecnologia fotográfica mecânica pela digital, permitindo o desenvolvimento acelerado das câmeras inteligentes, “auto-tudo”, e eliminando o custo-filme; e a Internet, facilitando o acesso à pesquisa, estudo, produção e distribuição de fotografias a um custo baixo e alcance global. Foi uma verdadeira revolução. Os milhões de consumidores de fotografias passaram também a ser produtores e distribuidores; o amador passou a contar com centros integrados de divulgação, feedback e relacionamento social, como o Flickr; o acesso às ferramentas, fator que historicamente separava profissionais de não-profissionais, se democratizou, se popularizou e eliminou o gargalo. A diferença entre profissionais e amadores ficou cada vez mais difícil de ser definida. E quando milhões de amadores que fotografam por experimentação e diversão, passaram a distribuir suas fotos de forma gratuita, apenas para ganhar reputação e prestígio, imagens de nível “profissional” se destacam dentre esses bilhões de fotografias produzidas, e são consequentemente vistas, utilizadas, consumidas.
A partir do momento em que consumidores são também produtores, todos produzem e todos consomem, criando um círculo virtuoso que é ótimo para a fotografia, mas não tão bem recebido pelos profissionais estabelecidos. O falta a esses é a compreensão de que a economia sofreu uma mudança radical; vive-se uma cultura de micro-preços e oferta ilimitada, em oposição a custos altos e pouca oferta; deixa-se, como diz Chris Andersen em seu livro “A Cauda Longa“, uma economia de escassez para uma economia de abundância, onde o equipamento é acessível a todos, o custo de armazenamento e distribuição é praticamente inexistente, e as ações de marketing e publicidade tradicionais já não tem muita valia; sim, na cultura das redes sociais e dos blogs, é muito mais importante a indicação e certificação de produtos por usuários reais (e confiáveis; visibilidade e prestígio online são moedas muito fortes), do que um anúncio impresso que vai sempre enfatizar os pontos “vendáveis” deste e esconder os pontos fracos.
A substituição dos átomos pelos bits permite que a informação se mova instantaneamente, sem custo mensurável; os produtos que carregam essas informações vão desaparecendo até que se estabilizem em nichos; no caso da fotografia impressa, o papel é substituído por downloads da imagem; o Kindle e o iSlate vieram para ficar!
A conclusão não é uma morte anunciada do fotógrafo profissional, mas sim a inevitável mudança de paradigma; profissionais e amadores se igualaram, e o diferencial tradicional formado pelo trio técnica, capital e distribuição já não se sustenta. Ou o fotógrafo participa deste universo de ilimitadas fotografias disponíveis a custo e preço baixos, ou migra para nichos cada vez mais isolados, onde a chance de ser um fotógrafo-estrela está limitada aquele nicho específico.
Quem realmente não tem mais chance é o “profissional-generalista”, que faz de tudo um pouco, pois agora existem milhões de especialistas que são capazes de fazer, para cada uma das categorias que o generalista domina medianamente (mediocremente?), fotografias melhores, entregando mais rápido, e cobrando menos.


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