Haiti. Fotografar ou ajudar? – Por Clício Barroso

Acredito que é muito bem colocado o que disse. O ato de fotografar para mostrar ao mundo a necessidade que passa o povo de Haiti, ou que esteja sofrendo por qualquer outro fenômeno climático ou não, é parte do que a fotografia tem a contribuir com a situação.
Relatos não são tão impactantes e motivadores de mobilização se não houvessem imagens para embasá-los.
Por outro lado, quando muitos mandam profissionais, sem contar os freelas, para um local assim acaba ocorrendo um excesso de necessidade de assunto e a “obrigação” de também registrar aquele momento. Todas as fotos acabam se tornando iguais e perde-se o objeto maior que é a linguagem, ou melhor ainda, a marca pessoal e aa ajuda que o fotoógrafo poderia ter dado a situação.
Agora pelo lado oposto, se fui enviado apra lá para registrar, tem muitos mesmo fazendo o mesmo, não posso perder os momentos e situações, não entregar o que meu concorrente entregou… e isto acaba gerando esta situação. Se desconsiderar a catástrofe ocorrida, parece coletiva de imprensa.
Agora, ser fotógrafo de guerra num local de catástrofe é fácil… por isto tem tanto… numa zona de guerra em si pouco tem peito de encarar… por isto as fotos nunca se repetem…

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por clicio em 17 de janeiro, 2010

Haiti. Fotografar ou ajudar?

BBC In Pictures – Search for Haiti Survivors

O recente terremoto no Haiti, considerado pela ONU a maior tragédia desde que a organização foi criada, levanta novamente a questão da função do fotojornalista de guerra e sua não-interferência com o “assunto”.
Quando os fotógrafos de guerra começam a agir como os paparazzi das revistas de fofoca, e cercam vítimas já estressadas como aves de rapina, as perguntas começam a surgir:
Até onde o profissionalismo, a vaidade, a vontade de ganhar prêmios ou a simples morbidez são defensáveis quando abaixar a câmera e ajudar pode ser mais eficiente? O que é ser profissional em uma situação extrema como essa que o Haiti está vivendo?

©Kim Ludbrook, European Pressphoto Agency (EPA)©Kim Ludbrook, European Pressphoto Agency (EPA)

A foto ao lado, realizada na África do Sul pelo fotojornalista Kim Ludbrook, acabou sendo motivo de uma inflamada discussão no Festival de Perpignan em setembro de 2008, já que os jornalistas retratados admitiram que nem um deles presente se preocupou em perguntar ao gravemente ferido “assunto” se ele precisava de ajuda.
O que parece ser óbvio para todos, é motivo de reflexão para alguns.
Pois bem, o que aconteceu no Haiti é terrível, mas é hora de ajudar.
Sim, os fotojornalistas contratados, profissionais de jornais, revistas, sites e redes de televisão fazem o que tem que fazer, isto é, mostram o horror da situação e assim provocam uma reação positiva, estimulando doações e atitudes proativas por parte de governos,  corporações e pessoas. O jornalismo desempenha um papel fundamental enquanto algo pode ser feito, e para mudar situações antes esquecidas.
O que assusta a todos, porém, é a quantidade de free-lancers, amadores, curiosos e aventureiros que estão indo, pretendem ir, ou já estão em Porto Príncipe, capital do Haiti.
O jornalista free-lancer pode ser aquele que, com a decadência do jornalismo impresso e consequentes demissões em massa, está fazendo o que os consultores indicaram; “se vira”, faz a reportagem, traz as fotos e reza para alguém comprar. Geralmente um profissional das antigas, experiente, que faz seu trabalho com competência; difícil é vender a matéria, com a concorrência predadora no Haiti.
Pode, por outro lado,  ser um fotógrafo independente (ou um coletivo), profissional, sensível, que mostra o que tem que ser mostrado com decência, com respeito, e ainda assim tocando o coração das pessoas para que ajudem a mudar a situação; o Ig e a Lou, do Lost Art, fizeram exatamente isso com “After the Fire“, uma cobertura tocante do fogo que consumiu uma favela em São Paulo, no Dia das Crianças.
Mas também pode se auto-denominar free-lancer aquele “adrenalin freak” que quer trazer histórias de aventura para sua vida boring, e em seu fotoclube, ou fórum, ou Facebook, ou Twitter,  manifestar sua pretensa coragem, seu egocentrismo, sua busca por fama. Não, não estou exagerando; conheço pessoalmente jovens brasileiros que nunca trabalharam na vida, de classe média alta, e que foram para zonas de conflito no oriente médio, devidamente paramentados, levando várias câmeras, lentes e coletes para justificar sua existência medíocre e entediante. Não trouxeram uma foto decente, mas quanta história…
Por outro lado, mesmo o mais experiente fotojornalista profissional geralmente tem consciência social, compaixão, e frequentemente deixa de fotografar para ajudar; um exemplo clássico é o do grupo formado por Timothy Fadek, Kai Wiedenhöfer; os fotógrafos Chris Anderson, Thomas Dworzak and Paolo Pellegrin da Magnum; Kevin Sites do Yahoo! News, Wael Ladki do Líbano, Lefteris Pitarakis da Associated Press, e vários jornalistas turcos que carregaram nas costas civis feridos e idosos nos bombardeios das cidades de Bint Jbeil e Aitaroun, em 2006, deixando de lado suas câmeras. Claro, é uma regra não-escrita do jornalismo não interferir nas cenas fotografadas, mas o limite é o da decência humana.
A discussão só cresce; “A pack of war paparazzi” (uma matilha de paparazzis de guerra) diz o site DVAFOTO sobre a quantidade de jornalistas em zonas de conflito; em outro post, mais recente, fala “Like moths in a flame” (como mariposas na lâmpada), especificamente sobre o Haiti; a jornalista Jay Newton-Small, que está trabalhando em Porto Principe, afirma no Twitter que os haitianos não precisam de mais jornalistas nem fotógrafos, querem sim médicos, água potável e comida.
Uma excelente forma de se entender o assunto é lendo o post de Dee Xtrovert que descreve o que ele passou em Sarajevo durante a guerra com a Sérvia; voluntários aos montes, sem treino, ocupando espaço em abrigos já escassos, se alimentando de comida e água não-existentes, sem falar o básico da língua do país em que estavam, e na realidade sendo uma pesada carga a mais para os que ali tentavam sobreviver.
Me parece lógico; se não puder ajudar, não atrapalhe; se não quer cavar com as mãos concreto despedaçado em meio a poeira e cheiro insuportável, e não tiver um contrato firme com uma empresa de jornalismo (ou seja, se não é um fotógrafo profissional de hard news), por favor; faça um cheque e o envie a qualquer uma das inúmeras organizações sérias de apoio e ajuda internacional ao Haiti, como a Cruz Vermelha.
Não tem dinheiro? Doe sangue.
Mas insisto: não leve sua câmera para passear em um país devastado pela tragédia.
Não é um show da Broadway; não é um filme de Hollywood; é a dura realidade do país mais pobre do hemisfério ocidental.
Por favor, deixe sua impressão abaixo; você iria para o Haiti? Para que?

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